Chanson: Linguagem e Desenvolvimento
Definição da Palavra "Chanson"
Segundo Howard Brown:
- Chanson (do francês, canção) designa qualquer composição musical com texto francês.
- O termo associa-se historicamente à canção monofônica dos trovadores e troveiros na Idade Média, às canções cortesãs do final do séc. XVI e XVII, e mesmo às canções populares dos séc. XVII a XIX. Especificamente, é empregado para as canções polifônicas dos séc. XV e XVI, cujos poemas não eram baseados nas formes fixes.
Segundo Michèle Aquien:
- A palavra chanson (derivada do latim arcaico e pós-clássico cantio, contrastando com o clássico cantus = canto) é antiga e refere-se a uma peça de versos simples, destinada ao canto, frequentemente com acompanhamento instrumental.
Tipos de Chanson ao Longo dos Séculos
As primeiras canções em língua vernácula eram majoritariamente monódicas (uma única linha melódica), facilitando a memorização e a transmissão oral.
Século XII
As chansons de geste (canções de feitos ou façanhas) integravam o repertório dos menestréis, responsáveis pelo entretenimento musical da corte em diversas ocasiões (caçadas, festas, banquetes). Essas canções mesclavam lendas e fatos reais, focando na temática dos cavaleiros da época carolíngia.
Século XIII
A poesia épica gradualmente cedeu espaço ao florescimento da poesia lírica, um estilo mais livre e forma de expressão primordial dos trovadores (Sul da França) e troveiros (Norte da França).
Estes desenvolveram gêneros lírico-narrativos como as pastourelles (pastorelas), as aubes (albas, canções da alvorada) e as chansons de toile (canções de tecelagem, frequentemente cantadas por mulheres durante o trabalho, expressando situações amorosas).
Contudo, a forma poética mais emblemática entre trovadores e troveiros era a celebração do amor cortês, denominada cansó (em occitano) ou cantiga de amor.
Século XIV: As Formes Fixes
Emergem as formes fixes (formas fixas) – rondeau, ballade e virelai – originadas, em parte, de danças populares. Essas estruturas poético-musicais dominaram a composição de canções seculares.
- Rondeau: Estrutura comum de 8 versos sobre duas rimas, com refrão recorrente. Esquema: ABaAabAB (letras maiúsculas indicam repetição do refrão, texto e música).
- Ballade: Geralmente 3 estrofes, com 7 ou 8 linhas cada, frequentemente com um refrão no final de cada estrofe. Estrutura comum de estrofe: aabC ou aabc.
- Virelai: Caracterizado por um refrão que enquadra estrofes internas (couplets). Estrutura: ABbaA (onde 'A' é o refrão, 'b' a estrofe com música diferente e 'a' a estrofe com a música do refrão).
Guillaume de Machaut foi o maior compositor deste período, mestre das formes fixes e da polifonia. Embora seguisse a lírica trovadoresca com temas de amor cortês, Machaut expandiu seu universo temático, incorporando citações mitológicas (ex: ballade "Je puis trop bien") e combinando elementos pagãos e sacros (ex: "Trop plus et belle"), refletindo uma dualidade profano-secular característica.
A Chanson da Borgonha (Séc. XV)
Os sucessores de Machaut na arte polifônica, notadamente Guillaume Dufay e Gilles Binchois, foram figuras centrais da Escola da Borgonha.
Guillaume Dufay
- Dedicou-se aos rondeaux, explorando variados humores poéticos (da celebração à insatisfação, do amor ao obsceno).
- Experimentou com o número de vozes textuais; frequentemente, apenas a voz superior (Superius) possuía texto (estilo tiple).
- Quando todas as vozes tinham texto, o Superius mantinha proeminência, com o Contratenor ganhando importância junto às demais vozes, antecipando a textura da chanson polifônica do séc. XVI.
- Desenvolveu a chanson-motet (Ars Combinatoria), combinando uma chanson profana (texto francês nas vozes superiores) com um motet sacro (texto latino na voz grave, geralmente o Tenor).
Gilles Binchois
- Serviu à corte da Borgonha após 1430. Suas chansons, predominantemente rondeaux, exibiam um caráter melancólico, musicando textos de poetas da corte ligados à "segunda retórica".
- Apresentavam relativa simplicidade, ritmos ternários e vozes inferiores com função primordial de sustentação harmônica e melódica para o Superius.
- Estas características, embora mais contidas, dialogam com a complexidade rítmica e notacional da Ars Subtilior (final do séc. XIV), um estilo contra o qual os compositores de meados do séc. XV (incluindo Dufay e o próprio Binchois em sua maturidade) reagiriam, buscando maior clareza e naturalidade. As obras da Ars Subtilior eram tipicamente em formes fixes e notáveis pela sincopação, polirritmia e notação complexa.
A Frottola (Itália, final Séc. XV - início Séc. XVI)
A Frottola floresceu em Mântua, sob o mecenato da Marquesa Isabella d'Este. Destinada a um público culto, caracterizava-se pela:
- Simplicidade melódica e contrapontística.
- Extensão vocal restrita e repetições frequentes.
- Frases bem definidas, com melodia principal no Superius.
- Apoio harmônico predominantemente vertical (homofônico) das outras vozes.
- Grande atenção à prosódia e declamação do texto.
A frottola rapidamente suplantou as formes fixes na Itália devido à sua flexibilidade em musicar diversas formas poéticas (como Ode e Soneto). Suas derivações incluem a Canzone, Villota, Villanesca e o Villancico espanhol. Compositores notáveis: Bartolomeu Tromboncino, Marco Cara, Juan del Encina (na Espanha).
Chanson Polifônica (Final Séc. XV - Séc. XVI)
Desenvolveu-se a partir do final do séc. XV, com o emprego de novas técnicas composicionais.
- As formes fixes entraram em declínio, dando lugar a estruturas mais livres.
- A textura da chanson tornou-se mais densa, aproximando-se da complexidade do motet contemporâneo.
- A chanson a 4 vozes tornou-se padrão, substituindo a de 3 vozes. As vozes intermediárias (Contratenor Altus e Contratenor Bassus, ou simplesmente Altus e Bassus, junto com Superius e Tenor) adquiriram importância equivalente, criando uma textura mais equilibrada.
Josquin des Prez
Josquin foi fundamental na transformação da chanson:
"Libertou-se dos invariáveis esquemas de repetição das formas fixas. Desta forma, transformou a chanson de um gênero limitado por sua textura convencional de contínuas camadas de som para outro capaz de muito mais variedade em técnicas e texturas que pudessem expressar mais humores e matizes.”
Enquanto alguns textos da geração de Josquin ainda mantinham certa rigidez formal, a poesia do início do séc. XVI, influenciada por poetas como Clément Marot, buscou maior liberdade. Marot (filho de um dos "grandes retóricos" que já questionavam as formes fixes) promoveu uma linguagem mais direta e coloquial, usando estrofes curtas e explorando a alternância entre rimas graves (acento tônico na penúltima sílaba) e agudas (acento tônico na última sílaba).
Chanson Parisiense (Séc. XVI)
Contexto Social e Cultural
- No séc. XV e início do XVI, era difícil distinguir uma composição musical "francesa" da escola franco-flamenga dominante. Compositores da primeira metade do séc. XVI buscaram um modelo de chanson mais claramente nacional.
- A vitória francesa na Guerra dos Cem Anos (1453) fomentou um desejo por identidade nacional.
- O grupo poético La Pléiade (liderado por Pierre de Ronsard e Joachim Du Bellay) visava criar uma escola literária genuinamente francesa, inspirada nas línguas clássicas mas valorizando o vernáculo.
Impressão Musical
- A invenção e difusão da impressão musical (por editores como Pierre Attaingnant em Paris) foi decisiva para a popularização da chanson.
- Mais que um avanço tecnológico, a impressão musical surgiu num momento de expansão humanista e consolidação de identidades regionais e nacionais.
- Tornou-se um mecanismo crucial para preservação e propagação cultural, marcando uma oposição às antigas formes fixes e ao estilo contrapontístico complexo da chanson franco-flamenga anterior.
Características Musicais
A nova chanson parisiense, desenvolvida a partir de c. 1530, representou uma síntese:
- Combinava a tradição polifônica franco-flamenga com a simplicidade e clareza da frottola italiana.
- Evitava complexidade excessiva: esquemas rítmicos intrincados e contraponto denso foram abandonados.
- Privilegiava texturas homofônicas ou de acordes.
- Melismas eram raros; preferia-se frases curtas e bem definidas.
- Declamacão do texto predominantemente silábica, com notas repetidas.
- Imitação contrapontística usada de forma restrita e breve.
- Esquemas de rima variados, refletindo inovação e distanciamento dos modelos medievais.
- Uma característica marcante, especialmente em chansons narrativas ou alegres, era a célula rítmica inicial dactílica (longo-breve-breve), frequentemente representada como ♪♫♫, baseada em pés métricos da poesia clássica.
Descrições onomatopaicas eram frequentes, especialmente nas obras de Janequin.
Clément Janequin
Clément Janequin é uma figura central da chanson parisiense da primeira metade do séc. XVI. Suas cerca de 286 chansons demonstram uma habilidade única em capturar sons do cotidiano e incorporá-los à música.
- Recriava ambientes sonoros usando vozes com fonemas e sílabas onomatopaicas, tratando o "ruído" como elemento musical.
- Sua música possui forte caráter descritivo ou programático. A preocupação com a forma e linhas melódicas tradicionais era secundária ao objetivo de pintar um quadro sonoro.
- Pelo uso constante de onomatopeias e descrição sonora, Janequin pode ser considerado um precursor da música programática e do uso de motivos recorrentes (semelhante ao leitmotiv posterior), técnicas fundamentais no desenvolvimento da música instrumental e da música para cinema.
Análise: Le chant des oyseaux (“O canto dos pássaros”)
Esta é uma das composições mais famosas de Janequin, exemplificando a aproximação entre música e oralidade sonora através da onomatopeia (ex: "trrr", "vrrr", "frian", "teo", "coqui").
Versão de 1528 (Pierre Attaingnant, Paris):
Esta versão apresenta uma estrutura que remete ao virelai, com um refrão principal ("Réveillez-vous coeurs endormis" - Despertai, corações adormecidos) que retorna no final e refrões secundários ou transições após cada couplet (estrofe).
| Seção | Duração Aprox. | Conteúdo Principal |
|---|---|---|
| Refrão A | ~15 ms | "Réveillez-vous..." |
| Couplet 1 | ~22 ms | Pássaros em geral ("A ce premier jour...") |
| Refrão A1 (var.) | ~14 ms | Reiteração / Transição |
| Couplet 2 | ~45 ms | Alouette (cotovia), Melro, Étourneau (estorninho) ("Vous orrez à mon avis...") |
| Refrão A2 (var.) | ~14 ms | Reiteração / Transição ("Rite et gaudir...") |
| Couplet 3 | ~43 ms | Rouxinol ("Rossignol du bois joli...") + Onomatopeias |
| Refrão A3 (var.) | ~14 ms | Reiteração / Transição ("Fuyez regrets...") |
| Couplet 4 | ~40 ms | Cuco ("Arrière maître cocu...") + Transição final ("Par trahison") |
| Refrão A Final | ~16 ms | "Réveillez-vous..." |
Nota: "ms" provavelmente se refere a compassos (mesures) ou unidades de tempo relativas, não milissegundos.
Versão de 1537 (Pierre Attaingnant):
Esta versão é mais concisa. Agrupa os couplets descritivos em uma única grande seção central, mantendo o refrão principal no início e no fim.
| Seção | Duração Aprox. | Conteúdo Principal |
|---|---|---|
| Refrão A | ~15 ms | "Réveillez-vous coeurs endormis" |
| Único Couplet (Bloco) | ~82 ms | Couplet introdutório ("Les oiseaux quant sont ravis...") + Onomatopeias e interjeições dos quatro couplets originais + Transição final ("Par trahison...") |
| Refrão A Final | ~16 ms | "Réveillez-vous coeurs endormis" |
Referências Bibliográficas
BARBIER, Jacques. LE CHANT DES OISEAUX - Deux versions. Editora A COEUR JOIE N° 6024.
BROWN, Howard Mayer. Music in the Renaissance. Prentice Hall History of Music Series. Prentice Hall, 1976. [Nota: A citação no texto parece referir-se a esta obra ou uma tradução dela].
Janequin, Clement. Le Chant des Oyseaux. Attaingnant, 1529. (Partitura disponível em CPDL e outras fontes).
Janequin, Clement. Le Chant des Oyseaux. Versões de 1528 e 1537. (Gravações e análises disponíveis online, ex: YouTube).
MARCHETTI, Luiz. "A 'chanson'- uma manifestação musical tipicamente francesa". Artigo disponível em:
MICHELS, Ulrich. Atlas da Música V.1. Editora Gradiva, 2003.
REESE, Gustave. Music in the Renaissance. W. W. Norton & Company, Revised Edition, 1959. [Nota: A citação pode referir-se à edição em espanhol: La Música en el Renacimiento, Alianza, 1988/1995].
SADIE, Stanley (Ed.). The New Grove Dictionary of Music and Musicians. Macmillan Publishers, 1980 (ou edições posteriores). [Nota: A citação pode referir-se à tradução/adaptação brasileira: Dicionário Grove de Música, Editora Jorge Zahar, 1994].